Noite de folia metálica no Burning House
Colaborou Johnny Z (Metal na Lata)
Enquanto o público começava a chegar, era possível ver integrantes das bandas passando o som, saindo da casa para fumar um cigarro ou tomar um ar na rua, além de trocar rápidas palavras com os fãs e tirar fotos. Tudo na maior simpatia, exatamente como todo fã — e qualquer ser humano de bem — deseja. Palmas para todos, que foram extremamente solícitos e, na maioria das vezes, tratavam os fãs como velhos amigos de décadas. Esse é o espírito que o Metal prega: união, respeito e amizade!
Pontualmente às 16h, os portões foram abertos e o público compareceu em peso, ocupando rapidamente o recinto. Lá dentro, a banca de merchandising chamava atenção, com lindas camisetas oficiais das bandas que se apresentariam ao longo do dia.
A primeira atração da tarde foi a New Democracy, trazendo seu Melodic Death Metal denso, técnico e carregado de atmosfera. Inicialmente, a banda enfrentou alguns problemas técnicos na aparelhagem e no som da guitarra, o que atrasou o início da apresentação. Com tudo devidamente ajustado, o massacre finalmente começou — e não deu trégua.
No palco, a New Democracy mostrou uma performance intensa e bem ensaiada, alternando momentos de brutalidade extrema com passagens mais melódicas e épicas, muito por conta do uso dos teclados, que adicionam camadas atmosféricas às composições. A banda demonstrou segurança e presença, mesmo abrindo o festival e encarando um público ainda em processo de chegada.
Liderada por Rafael Lourenço (guitarra e vocal), a banda — que conta ainda com Fabrício Fernandes (guitarra, também do Throw Me To The Wolves), Marcus Vinícius (baixo), Vinícius “Banzai” Borges (teclados) e Iago “Barstuk” Alves (bateria) — está divulgando seu mais recente trabalho, The Plague (2022), um álbum conceitual que confere ao show uma aura quase cinematográfica. Ao vivo, as músicas ganham ainda mais peso e impacto, com a banda explorando bem as variações de andamento e clima.
Vale destacar que, no final do ano passado, Rafael substituiu Guilherme Calegari em um show do Throw Me To The Wolves, promovido pela Dark Dimensions, no qual também se apresentaram Siegrid Ingrid, Genocídio e Torture Squad, em 21 de dezembro — experiência que claramente contribuiu para aumentar ainda mais a amizade entre seus integrantes.
De volta ao show do New Democracy, a banda contou com a participação especial de Iara Vilaça, vocalista da Urantia e do tributo ao Halestorm, que subiu ao palco para cantar “Unexpected Projection”, faixa originalmente gravada por Fernanda Lira (Crypta). Iara mandou muito bem, com uma performance intensa, segura e cheia de presença. Para completar, durante boa parte do show da New Democracy, ela permaneceu agitando no meio da plateia, demonstrando total sintonia com o público.
Outra participação foi a de Fábio Seterval, vocalista do Funeral Blood (Exodus Tribute), que impressionou não apenas pela entrega vocal, muito próxima à de Rob Dukes, atual vocalista do Exodus, mas também pela semelhança física, arrancando reações entusiasmadas da galera.
Ao vivo, a New Democracy aposta em uma postura próxima e espontânea, com Rafael Lourenço quebrando a barreira entre palco e plateia e estimulando respostas constantes do público. Musicalmente, o grupo transita com naturalidade entre passagens mais extremas e trechos cadenciados, melódicos e cheios de groove, criando uma dinâmica que dialoga tanto com os fãs mais técnicos quanto com aqueles que buscam impacto, energia e brutalidade sem concessões.
Apesar de algumas falhas pontuais na guitarra de Fabrício, o saldo geral da apresentação foi bastante positivo. Mesmo com parte do público ainda aguardando ansiosamente pelas atrações principais da noite, a New Democracy conseguiu conquistar atenção, respeito e aplausos, saindo do palco claramente fortalecida e bem recebida.
Em seguida, foi a vez do Venom Inc. E digo sem exagero: a banda entregou um show simplesmente fantástico e, por que não dizer, verdadeiramente diabólico.
Como um power trio explosivo, o Venom Inc. mostrou no palco por que segue sendo um dos nomes mais respeitados quando o assunto é resgatar a essência crua e primitiva do Metal extremo. O eterno Tony ‘Demolition Man’, é um performer de primeira linha, não devendo absolutamente nada a Cronos — e há quem prefira, inclusive, esta encarnação da banda ao Venom original. Enfim, deixemos as predileções de fora. Com postura confiante e carisma de sobra, Tony comanda a linha de frente distribuindo energia, incentivando a interação com a plateia e impondo total controle do público; seja derrubando microfones ou berrando feito um louco, sua entrega é absoluta. No quesito simpatia, carisma e conexão com a galera, ele leva clara vantagem, conduzindo tudo com naturalidade, segurança e uma presença que o confirma, sem exagero, como uma lenda viva — e um ser humano maravilhoso.
Ao seu lado, o guitarrista americano Curran Murphy — veterano conhecido por passagens por bandas como Nevermore e Annihilator — desfilava riffs cortantes com autoridade, ostentando sua careca característica e as já tradicionais tranças na nuca. Com uma pegada firme e precisa, Curran sustentou o peso e a agressividade do show, enquanto a cozinha mantinha tudo soando alto, sujo e visceral, exatamente como manda o figurino. Vale destacar que era nítido o quanto a banda estava se divertindo no palco, com todos sorrindo e agitando como loucos — especialmente Curran, que a cada nota tocada transbordava sinergia com os presentes. Arrisco dizer que é difícil encontrar hoje uma dupla de frente tão coesa, entrosada e genuinamente feliz por estar no palco quanto essa.
A resposta do público foi imediata. Circle pits se formavam um atrás do outro ao som de faixas próprias e pesadas como “Ave Satanas”, “There’s Only Black” e “Inferno”, além de clássicos imortais como “Parasite”, “Black Metal” e “Countess Bathory”, transformando o local em um verdadeiro ritual coletivo e em uma celebração intensa do legado do Metal extremo britânico. Em meio ao caos, Curran ainda arrumou tempo para distribuir palhetas até esvaziar sua sacolinha — gesto sempre valorizado e apreciado pelos fãs.
Uma pequena pane na guitarra de Curran nem chegou a ser sentida, pois todos brincavam com a situação de um jeito incrível. Inclusive com ajuda dos músicos do Vio-Lence e Forbidden que curtiam a apresentação ao lado do palco – e junto da plateia!
Para se ter uma ideia da dimensão do espetáculo, diversas figuras conhecidas da cena estavam presentes para conferir a apresentação, como Eric de Haas, Gabriela Abud (ex-Nervosa), Glauber Barreto (Válvera), Eduardo Boccomino (Critical Mass, ChaosFear) e Murilo Leite (Genocídio), reforçando o peso e a relevância do Venom Inc. dentro do festival. Ao término do show, Tony, Curran e o baterista Marc “JXN” Jackson circularam naturalmente por toda a Burning House, atendendo fãs, conversando e tirando fotos com entusiasmo genuíno.
Depois foi a vez dos americanos do Vio-Lence e, sem qualquer exagero, a Burning House se transformou numa verdadeira praça de guerra. Bastaram os primeiros riffs para o caos se instaurar: rodas se abriram, corpos colidiram, muitos stage diving e a violência sonora típica do thrash metal da Bay Area fez inúmeras “vítimas” ao longo do set. Pessoas caiam de cabeça no chão e levantavam com uma naturalidade sem nenhum dano – pelo menos visível (risos). No comando dessa destruição estava o vocalista Sean Killian, visceral, intenso e provocador, incitando a plateia ao colapso absoluto a cada música, mantendo o público em estado permanente de combustão devido aos seus vocais característicos como uma montanha-russa desgovernada.
A formação atual é simplesmente espetacular e funciona como um verdadeiro trator no palco. Nick Souza (Hatriot) — filho de Steve “Zetro” Souza (ex-Exodus, ex-Hatriot, ex-Legacy) — entrega uma bateria agressiva, precisa e incansável, sustentando a fúria do repertório sem perder peso ou velocidade. No baixo, Jeff Salgado (Psychosomatic) reforça a linha rítmica com presença sólida e pulsante, enquanto as guitarras de Ira Black (ex-Vicious Rumors, Heathen) e Claudeous Creamer (também guitarrista do Possessed) despejaram riffs cortantes e solos afiados, garantindo aquele som robusto, ríspido e esmagador que consagrou a banda. Sean Killian, como único membro original, montou um verdadeiro time de elite, capaz de honrar o legado e, ao mesmo tempo, soar absolutamente atual.
O repertório foi um verdadeiro desfile de clássicos, com destaque claro para o material do álbum de estreia Eternal Nightmare (1987), executado quase em sua totalidade, além de algumas cacetadas do segundo trabalho, Oppressing the Masses (1990), como as magistrais “Officer Nice” e “World in a World”, que encerrou a anarquia — digo, o show. Senti falta de “Liquid Courage”, mas tudo bem: não há como reclamar diante de uma aula dessas. Foi pura intensidade do início ao fim, com o público respondendo à altura, em uma conexão direta entre palco e pista. A sensação era de estar presenciando uma verdadeira catarse como era no final dos anos 80, ou seja, um clima nostálgico onde nem os cabelos brancos de muitos presentes valiam de alguma coisa. Enfim, o Vio-Lence hoje está mais vivo, faminto e perigosamente afiado como nunca, ou seja, sendo ainda uma força brutal no thrash metal mundial.
Alguns problemas pontuais nas guitarras não chegaram a atrapalhar a aniquilação. Houve também microfonias chatas e, do início até a metade do show, o som estava um pouco embolado, porém depois melhorou bastante. O microfone de Sean soava baixo e excessivamente reverberado, sendo por vezes engolido pelo peso absurdo da guitarra de Ira, que estava simplesmente devastadora.
Vale destacar que a atmosfera era tão prazerosa e camarada que os próprios músicos do Venom Inc. e do Forbidden chegaram a assumir o papel de roadies, ajudando a resolver panes nas guitarras. Um clima de união e respeito mútuo no backstage e no palco que tornou tudo ainda mais sensacional.
O Forbidden subiu ao palco com a segurança de quem conhece cada centímetro do próprio repertório e, principalmente, sabe mexer com os sentimentos dos presentes. Logo nos primeiros minutos, deixou claro que não seria um show de lembrança, mas de afirmação — ainda que a banda foque suas apresentações essencialmente nos dois primeiros álbuns, Forbidden Evil (1988) e Twisted Into Form (1990). Em uma sequência criminosa, “Infinite”, “Out of Body (Out of Mind)”, “March Into Fire” e “Twisted Into Form” soaram como um verdadeiro chamado às armas: riffs cortantes, a bateria precisa de Chris Kontos, a rifferama de Craig Locicero nas alturas e a pista imediatamente em ebulição.
Craig estava simplesmente insano desde o início, indo até a beirada do palco para enfiar as palhetadas na cara de quem estava mais próximo, feito um lunático. Monstro ele é — e não é de hoje. Era o tipo de performance que não pede permissão: simplesmente acontece e te derruba sem misericórdia.
Ainda em “Twisted Into Form”, a faixa ganhou ainda mais força ao vivo, com Craig e Jeremy Von Epp, novo guitarrista, alternando harmonias e solos com entrosamento absoluto. À frente, Norman Skinner já demonstrava total confiança, circulando pelo palco e incitando o público sem exageros nos discursos, mas transbordando alegria, carisma e respeito pelo material.
Quando os primeiros acordes de “Forbidden Evil” surgiram, a reação foi imediata. Clássico absoluto, a música funcionou como um ponto de comunhão — ou seria de ebulição? — entre banda e plateia, com coros espontâneos, headbanging incessante e muitos stage divings suicidas (risos). Skinner mostrou respeito total ao legado, cantando com personalidade própria, enquanto Matt Camacho mantinha a base pulsante e pesada, segurando tudo com autoridade, ainda que de forma mais discreta, ao fundo do palco.
O momento mais intenso veio com o hit “Step by Step”, executado com precisão, groove e um peso descomunal, evidenciando o quanto a banda sabe trabalhar dinâmica sem perder agressividade. Teve hora em que você jurava estar ouvindo Russ Anderson cantando! Na sequência, “R.I.P.” trouxe de volta a urgência, com andamento acelerado e riffs afiados, transformando novamente a pista em um campo de batalha organizado, com os fanáticos fazendo air guitar embasbacados (sim, eu fui um deles).
“Through Eyes of Glass” foi mais um dos grandes pontos altos do show, unindo técnica e emoção. A música cresceu no palco, com variações de tempo muito bem marcadas por Chris Kontos e uma entrega vocal intensa de Norman Skinner, criando um clima quase hipnótico antes da explosão final. Em seguida, a arrasa-quarteirão “Chalice of Blood” fechou o bloco com peso e violência, riffs secos e uma execução que soou tão atual e brutal quanto nos tempos áureos da Bay Area.
Mesmo com o setlist transitando majoritariamente entre os dois álbuns clássicos, ainda houve espaço para uma faixa mais recente — e que estará no próximo álbum da banda — “Divided By Zero”, que, embora tenha provocado menos caos na pista, foi bem recebida. Ainda assim, o público deixou claro seu desejo: mergulhar sempre de cabeça no material nostálgico e clássico, recebidos com entusiasmo absoluto, rodas abertas, mosh intenso e headbanging coletivo até o último acorde. Também, com uma execução tão cirúrgica, teria outra reação? (risos)
Com um som alto e nitidamente perfeito, o que se viu foi uma verdadeira aula de thrash metal. Locicero segue como a espinha dorsal do Forbidden, despejando riffs cortantes com autoridade, enquanto Von Epp se mostrou totalmente integrado, formando uma dupla de guitarras sólida, técnica e agressiva. A cozinha funcionou como um trator: Matt Camacho sustentando tudo com um baixo firme e pulsante, e Chris Kontos, experiente e explosivo, comandando a bateria como um rolo compressor, com precisão cirúrgica e peso na medida certa. À frente, Norman Skinner demonstrou — além de um alcance vocal brilhante — segurança, entrega e uma presença de palco cada vez mais convincente, honrando o legado da banda sem soar como mera releitura do passado. Provavelmente 100% dos presentes abraçaram o vocalista com carinho imediato.
Skinner demonstrava empolgação evidente por cantar no Brasil, sentimento compartilhado por Locicero e Kontos, visivelmente à vontade e curtindo cada momento no palco — algo que já havia ficado claro na primeira passagem da banda pelo país, no Summer Breeze Brasil de 2024.
Ao longo de todo o set, o Forbidden se mostrou uma banda confortável com a própria história. Não houve pressa, tampouco excesso de virtuosismo gratuito. Cada música teve espaço para respirar, crescer e atingir o público de forma direta — exatamente como o thrash metal deve ser.
No fim, ficou claro: essas músicas não são apenas clássicos de catálogo. São armas vivas, ainda eficazes, ainda perigosas, perfeitamente adaptadas ao palco atual dessa máquina chamada Forbidden.
E por mais insana que tenha sido a pista da Burning House, tudo terminou bem: ninguém saiu machucado (creio eu), e cada circle pit, cada mosh, cada stage diving, cada bebida consumida e cada grito até a exaustão valeram a pena. Ao final, os músicos ainda ficaram conversando com os presentes, tirando fotos no meio da galera, fechando a noite com chave de ouro. E sim, meus caros, vários marmanjos grisalhos se sentiram novamente com 16 anos de idade.
Que este ano traga ainda mais eventos como esse. QUE NOITE INCRÍVEL!
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